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A impermanência no mundo corporativo

24 de abril de 2017

Por Cristina Aiach Weiss*

O trabalho dá sentido à vida, enobrece o homem, sua alma e lapida seu caráter. É fonte do nosso sustento e daqueles que dependem de nós. Trabalhar é sentir-se útil,  alimentar o intelecto, progredir; é a oportunidade de contribuir, se relacionar e deixar um legado. E de preencher o vazio inerente à existência humana.

O excessivo apego ao trabalho pode colocá-lo muito além do seu papel principal. Para alguns, passa a ser a confirmação do próprio valor como ser humano, a afirmação do ego e veículo para o exercício do poder e influencia. A busca obcecada pelo reconhecimento da imagem e não necessariamente da essência.

A alta cobrança pela produtividade, o avanço contínuo das novas formas de conexão e interação com o mundo, o convívio de várias gerações no ambiente do trabalho e responsabilidades sendo atribuídas aos emergentes e não necessariamente aos mais experientes, confirmou ao homem o fim da estabilidade do emprego e a chegada, sem partida prevista, da ameaçadora impermanência.
Cada vez mais, no ambiente corporativo, tornou-se alta a probabilidade de se encerrar o vinculo de trabalho, repentinamente.

Por mais que julgue estar contribuindo no seu melhor, comparecendo diligentemente à rotina imposta pelas funções administrativas, em algum momento, quando menos se espera, a soberania corporativa determina que sua contribuição não é mais necessária e relevante. Você é então convidado a se retirar e em algumas horas, estará fora. Em 48 horas, poucos se lembrarão de você e a rotina corporativa retornará ao seu normal, sem a sua contribuição.

O seu mundo imaginário desaba. Aquele universo seguro e constante, em um segundo, se torna inexistente. Embora a alma celebre em silencio, o ego insiste em contrariá-la, clamando por uma explicação além das ofertadas superficialmente.

A partir do próximo dia, ao acordar, você terá de decidir para onde ir. A escolha do que fazer com seu tempo retorna ao seu poder. Uma sensação de alívio percorre sua espinha dorsal, o peso de manter aquela imagem não mais te acompanha. Mas a dor da rejeição, da perda da estabilidade pessoal e financeira, do status e poder, não permite qualquer entusiasmo.

O sofrimento surge, com frequência, do ego contrariado, da perda de importância, de não se sentir-se mais necessário, e não necessariamente da perda do trabalho em si. Aí se inicia o trabalho de reconstrução. Da reforma da autoimagem, às inúmeras explicações aos curiosos de plantão.

Viver um período sem trabalho, pode ser viver o vazio da alma na busca de um sentido. Por isso, a experiência pode ser muito mais positiva do que se imagina. É na busca incansável pelo sentido que encontramos os novos caminhos, é no vazio que criamos o novo e recriamos a nós mesmos. Não conseguimos plantar uma semente nova num vaso entupido de raízes e folhas. Limpar as folhas secas, eliminar as ervas daninhas, diminuir os ocupantes daquele espaço para poder replantar. O trabalho do jardineiro é minucioso e necessário.

O termo tibetano “bardo” significa “entre duas coisas”.  Indica o intervalo entre um ciclo que terminou, marcado por um início e um fim definidos, e outro que ainda não se inaugurou. A saída brusca de uma atividade profissional necessariamente implica a passagem pelo bardo; o intervalo entre o que foi e o que ainda será. Viver o vazio entre os dois mundos, requer um esforço extraordinário, mas as recompensas são inúmeras.

Por muito tempo, sofri com os processos de despedida no mundo corporativo. Até que vivi, eu mesma, um processo de separação profissional. Descobri a beleza do recomeço, o orgulho de conseguir superar a minha própria dor e meus fantasmas. Surpreendi-me com os inúmeros caminhos que se abriram a minha frente. Celebrei as novas amizades que surgiram e a compreensão madura e evoluída que adquiri sobre a dor e as partidas. Concluí que o que importa é o superar-se internamente e não o que é dito, visto e demonstrado externamente. Esse e outros aprendizados me conduziram a novos voos com diferentes panoramas e recomeços.

Quão necessária é a atenção e a lucidez no momento da dor e da dúvida para que se compreenda o que precisa ser aprendido. É preciso coragem para olhar além do visível e encontrar o que está escondido por trás das facetas do ego.

Deveríamos estar em eterno estado de recriação de nós mesmos. Uma contrariedade, uma opinião que desafia a sua, um obstáculo para que você realize algo, uma crítica, uma partida ou ruptura são convites para repensar nossa verdadeira intenção e forma. Sempre há oportunidades de mudar o ângulo de um pensar rígido, de enxergar algo novo ao invés de somente ver, de dizer a mesma coisa, porém de uma outra forma, de ouvir mais para descobrir o que não é dito. Mesmo não tendo todas as respostas, é preciso reinventar-se, rever-se, desintoxicar-se continuamente para ofertar algo de novo para o mundo e para si mesmo. O desapego a padrões já solidificados é uma porta para a liberdade.

A cada momento, estamos afirmando hábitos que nos levam a calcificação de um caráter. Uma despedida é uma oportunidade para libertar-se. Um confronto é outra. O vazio é um convite à inovação. O silêncio é um impulso à profundidade. A separação externa pode ser o caminho para uma união interna.

E ainda no início de um novo ciclo qualquer sempre pergunto a mim mesma: o que um ano novo irá nos trazer? E respondo com gratidão: 365 oportunidades.

* Cristina Aiach Weiss  é diretora de RH para a América Latina no Deutsche Bank

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